quarta-feira, 21 de julho de 2010

Durban - último destino

À procura de bagunça, caos e desorganização de uma cidade africana, fui ao centro de Durban, no Victoria Street Market. Em Joburg, passei pelo downtown apenas de carro e umas duas vezes. Queria sentir essa parte da África pela última vez, e Durban me deu esse prazer.

Antes de me aventurar no centro, a gerente do meu hostel me indicou um street market que acontece apenas aos sábados e que eram expostos produtos de pessoas locais. Me senti na feira de artesanato da minha cidade natal, Cataguases, Minas Gerais, porém, com uma única diferença: tinha comida de todas as partes do mundo praticamente, isso colocando um máximo de vinte barracas. Crepe da França, curry da India, kebab da Grécia, brusqueta da Itália, e muita comida árabe e mais ainda indianas. Logo de manhã, sem tomar café, mandei logo uma samosa (frita) para dentro. Estava morrendo de fome e não tinha nada de iogurte, frutas, granolas, pães e manteiga. O jeito foi fazer um café-almoço. Claro que não poderia deixar de experimentar os doces. Torta de maçã com uma sobremesa que me lembrou arroz doce, mas não era, e com um delicioso creme por cima.

Sentei no gramado e fiquei observando as pessoas. Eram moradores locais e a mistura era perfeita. Indianos (a maioria deles), árabes, negros e brancos. Durban me deu uma sensação diferente. Parece que as consequências do Arpatheid não se difundiram tanto lá, pelo menos foi o que achei. No parquinho, crianças aproveitavam o dia quente e ensolarado. Já de início, Durban me conquistou.

Como orientado pela gerente, fui descobrir melhor em que ponto o ônibus para o centro passava. No meu guia de viagem aconselhava a fazer passeios em grupo, pois Durban não era uma cidade segura para turistas perambularem sozinhos. Ignorei o fato. Claro que precaução sempre é bom ter, mas no fundo já estava de saco cheio dessa falta de segurança e de certas privações. A gerente não seria maluca de arriscar a vida de um hóspede, então resolvi seguir e fui procurar o tal ponto.

Saí perguntando para guardadores de carros, feirantes e policiais. Ninguém sabia. As pessoas não são muito boas para dar informação, não é por falta de querer, pois são muito atenciosas, mas porque não sabem mesmo, pelo menos é o que parece. Numa rua perpendicular, avistei de longe uma placa de ponto de ônibus. Caminhando para lá em passos longos e rápidos, um feirante hippie, estilo Bob Marley, resolveu me seguir e puxar papo. Não dando muita ideia, respondia grosseiramente e pedia para ele me deixar em paz. Vendo uma senhora perto do ponto, parei e grudei nela. O cara ainda insistiu, não sei o que ele queria, veio sorridente e com um papo amigável. Parada no ponto olhei muito séria e pela última vez pedi que ele fosse embora. A resposta foi um "ok", e completou que "infelizmente não teria a chance de me encontrar de novo". Virei a cara e o infeliz desistiu. Ufa...antes só pensava no conselho do meu guia de viagem.

Até ver direito para onde ir, perdi o primeiro ônibus que passou. Depois de uns vinte minutos apareceu outro com destino “City”. Era essa mesmo. Mais uma vez era a única branca no meio de negros, árabes e indianos, mas foi a primeira vez que não me senti olhada com diferença. É claro que está escrito na minha testa que sou turista, e por isso uma mulher perguntou para qual lugar eu queria ir. Ela disse que seria melhor pegar outro ônibus, pois o que eu estava me deixaria um pouco longe. Bom, entrei mesmo assim e perguntei ao motorista. Muito provável que ele só tenha entendido “market”, pois achou que fosse um mercado a cinco minutos de onde estávamos. Enfim, me arrisquei e continuei no ônibus. 

Cheguei no centro e era uma loucura. Parecia uma Rua da Alfândega (para os cariocas), ou uma Primeiro de Março (para os paulistas). Saltei do ônibus no meio de uma avenida sem saber direiro para onde ir, já que as orientações nunca são bem explicadas. Um indiano, vendo a minha cara de socorro no meio da rua, parou o carro e quis me socorrer. Disse que poderia me levar até lá, mas educadamente agradeci. Queria também sentir um pouco da cidade e ver coisas que turista não vê. Caminhando por uns vinte a trinta minutos no centro de Durban, cheguei ao Victoria Street Market. Confesso que esperava mais. Em guias e revistas tinha lido que era um mercado de temperos e tecidos indianos misturado com a arte africana. Vi algumas lojas sim, mas nada de surpreendente. Imaginei um mercado enorme com a mistura dessas duas culturas, mas tinha loja de celular, farmácia e lojas normais. Achei o mercado muito mal conservado, e as pessoas transitam por lá para pegar ônibus e vans numa estação ao lado. Um pouco decepcionada e morrendo de fome, liguei para o Mbuso para me pegar. Fui direto para um shopping normal para comer alguma coisa. Cansada, cheguei no hotel, escrevi para o blog e fui dormir. Nada de praia nesse dia.

Domingo me vi respirando o ar puro, sentindo o calor que tanto queria, e pessoas caminhando, correndo, passeando na orla de Durban, a mais desenvolvida do país. O Ushaka Marine, que engloba os parques Sea World e Wet`n Wild, mais parques de diversão, piscinas públicas, restaurantes e escolas de surf e de mergulho completam o cardápio de entretenimento, e mais, é claro, a praia. Adorei estar num típico domingo de Durban, e o melhor, sem a turistada em função da Copa do Mundo. A cidade, aliás, o país, já voltou para a vida normal.

No dia seguinte estava eu lá de novo para ir no aquário do Sea world, dito como o maior do mundo, porém me recordo de um que fui na Austrália gigantesco. Acho que o guia se enganou. Qualquer aguário me faz bem, mesmo um mísero de água doce, então não tinha o que perder. Depois de saber que meu voo para Joburg tinha sido cancelado e que eu teria que voar às sete e meia da manhã, o aquário foi a melhor coisa para me tranquilizar. Fiquei até tarde na praia, e depois, rumo ao hotel arrumar as malas e dormir cedo, pois teria uma longa viagem pela frente até o Brasil.

Às cinco horas da manhã estava de pé e ansiosa para pergar o voo logo. Cheguei em Joburg por volta das oito e meia, guardei minhas malas no aeroporto e voltei para a minha segunda casa na África: Sandton City. Ótimo foi ver que o trem do aeroporto até Sandton está realmente funcionando. Para passar o tempo assisti um filme no cinema, muito triste por sinal, e fiz minhas últimas compras de sounvenirs – sou adepta ao consumo de artesanto, não resisto mesmo. Almocei num restaurante italiano que adoro e às três e meia, Dixon, o motorista que ficou com as minhas outras duas malas, me buscou para a gente ir para o aeroporto.

Dessa vez não tive a sensação de despedida. Acho que um dia voltarei. Coisas boas e não muito boas aconteceram, como em qualquer lugar isso é normal, mas não peguei trauma da cidade, como algumas pessoas pegaram. Tive experiências inesquecíveis em Joanesburgo, e graças a Deus nada de ruim aconteceu, aliás, nesses quatro meses realizei muitos dos meus sonhos. Volto para casa com a sensação de que aproveitei ao máximo, que está na hora de ir, mas que se eu quiser (e puder) posso realizar o que pensei em fazer, como ir nas montanhas dos Gorilas, no Congo ou Ruanda. Esses quatro meses deixarão saudades, sinal de que foi bom. Agradeço a todos pelos incentivos de realizar este blog. Espero que vocês tenham curtido, pois para mim compartilhar das minhas experiências e pensamentos me acrescentou muito mais do que eu imaginava. Agora, até o Brasil!










segunda-feira, 19 de julho de 2010

Neve na África

Ainda com as lembranças de Lesoto, decidi então explorar mais as montanhas altas de Drakensberg. Deixei pra trás o Bazbus, que passaria pelo hostel por volta das duas, para fazer uma trilha até a segunda maior cachoeira do mundo - a primeira se encontra na Venezuela. Depois da trilha, a idéia era ir direto para uma cidadezinha próxima pegar o ônibus para Durban. Tudo saiu como o combinado.

Tivemos que acordar meia hora mais cedo por minha causa, já que eu teria que estar por volta de quatro e quarenta da tarde no ponto do ônibus. Dessa vez um casal de franceses balanceou o grupo contra três holandeses. Tudo pronto às sete e meia da manhã...água, barra de cereal, casaco extra, cachecol, luvas e o nosso almoço incluído no pacote, nada mais que um sanduíche de queijo, alface e tomate, duas balas de caramelo, e o mais engraçado, um ovo cozido, ainda com casca. Duas horas de estrada e lá estávamos no Royal Natal National Park, nos pés do Amphitheatre, um paredão de basalto com 1500 metros de altitude.

O balanço do carro me deixou com mais sono ainda, mas só foi colocar a cara para fora que despertei num minuto. O vento gelado batia no meu rosto e logo me deu a impressão que não seria nada mole. Do ponto que estávamos já se via neve. Sabia que na África do Sul alguns pontos nevavam, mas não imaginava ter que me deparar com ela, mesmo que tenha sido em pouca quantidade. Começamos uma subida leve, que passou depois a ser arriscada pelo gelo no caminho, ficou pior com uma inclinação de uns 70°, e pior ainda com um vento forte e muito gelado. Eu era uma das mais preparadas. Estava com dois casacos quentes de poliéster e mais um de uma lã fininha, uma calça legging grossa por baixo, um cachecol, e a única de luvas, fora o guia. Ninguém imaginava o frio de vários menos graus. A minha falha foi não ter colocado um casaco com capuz, já que eu não tinha gorro, e ter esquecido de trocar as meias soquetes por umas mais longas.

Depois de quarenta minutos de caminhada, não sentia mais minhas orelhas e meus ouvidos doíam com o vento. Tive que inventar um novo estilo. Peguei meu cachecol e fiz dele uma bandana, enrolando até o último centímetro para cobrir minha cabeça. Foi a salvação. Estava aquecida nas orelhas, pescoço, braços, peito e pernas, mas o meu rosto e os meus pés continuavam congelados. Não tinha como tampar a boca e o nariz porque precisava de muito ar, muito mais do que o normal, e às vezes o vento era tão forte que dificultava para respirar.

A pior parte veio quando tivemos que escalar, e não subir, uns 300 metros. A neve nesse trecho estava mais fofa, o pé afundava e a ela entrava sem cerimônia no tênis. No topo, mas ainda não no ponto final, paramos para descansar e almoçar. Se ouvia só o barulho do vento e uma sinfonia de funga-funga e cofcof. Não podíamos deixar nossos músculos esfriarem, por isso depois de quinze minutos no máximo, prosseguimos com destino à cachoeira de Tugela.

Acabei de lembrar que a escalada não foi a pior parte, pois nessa hora o vento estava ameno. O ponto que achei realmente que a coisa estava ficando feia foi quando os meus pés começaram a doer muito, parecia que eu estava perdendo os movimentos. Lógico que meia soquete, um tênis de corrida(aqueles furados para a ventilação) e pés afundados em neve, é resultado de falta de circulação, e nessa hora o meu amigo vento queria me carregar junto com ele. Era difícil ficar em pé, mas pelo menos estávamos em terreno plano. Nem em um ano morando no gélido Canadá, eu senti o frio que passei nas montanhas de Drakensberg.

Finalmente chegamos na Tugela Fall. Como essa época do ano é muito seca (desde que cheguei só vi chuva duas vezes), já era de se esperar que não teria muita água. Um fio saía do pequeno rio no alto da montanha, e o resto estava congelado. Mas o que importava para mim era estar a mais de 1000 metros de altura, e o melhor, ter conseguido chegar até lá. O dia estava maravilhoso, e com menos vento deitei sobre uma pedra, fechei os olhos e senti o sol me aquecer. Meus pés começaram a voltar ao normal e ficaram prontos para a descida, que foi bem mais fácil. Voltamos por um outro caminho, e com ajuda de escadas nas partes mais íngremes, conseguimos descer com facilidade. Quando cheguei lá embaixo, olhei para cima para deixar fotografado na minha memória o que tinha acabado de fazer. Achei fantástico.

Exausta, já no posto de gasolina, ponto de espera do ônibus para Durban, esperei por mais de uma hora – nem precisávamos ter acordado mais cedo. Na viagem não consegui dormir e fui assistindo o filme “A Sogra”, já visto por mim umas três vezes. Fiquei super confortável, só me preocupei com um casal estranho que foi brigando em dialeto africano a viagem toda.

Cheguei em Durban por volta das nove da noite. Na rodoviária o motorista de táxi, Mbuso, me esperava. Tinha pegado o telefone dele com o hostel. Foi melhor assim, pois não gostei nada dos taxistas da rodoviária. No meu celular, sem brincadeira, tenho dez contatos de motoristas, e na minha carteira, mais uns 15 cartões. Na África é melhor saber com quem andar.

Feliz da vida com um quarto só para mim, tomei um banho (em banheiro comunitário), e caí igual a uma pedra na cama. Estava no meu último destino antes de voltar para o Brasil. Falando nisso, esqueci de comentar, mas nem que eu quisesse poderia ficar mais aqui. Só quando fui para Lesoto que me dei conta de que meu visto vence dia 27 de julho. Por sorte, outras viagens que comecei a planejar não deram certo por determinados motivos, mas como se pode ver, nada acontece por acaso, e confesso que estou agora ansiosa pela minha volta....quarta-feira irei pisar em terras brasileiras. Próxima e última postagem da minha viagem: Durban – a India na África.

 
Amanhecer no hostel

Ampitheatre












Tugela Fall
imagem: http://s3.amazonaws.com/readers/2009/06/14/tugela_1.jpg